LIBRÁRIO NAS ESCOLAS PÚBLICAS INCLUSIVAS: PROCESSOS COMUNICATIVOS E INTERATIVOS ENTRE SURDOS E OUVINTES

LIBRÁRIO NAS ESCOLAS PÚBLICAS INCLUSIVAS: PROCESSOS COMUNICATIVOS E INTERATIVOS ENTRE SURDOS E OUVINTES

Fernanda Cilene Moreira de Meira

Flávia Neves de Oliveira Castro

Nadja Maria Mourão

Rita de Castro Engler

Apresentador: Fernanda Cilene Moreira de Meira

Eixo: Estudos com conclusões finais

Tipo de Apresentação: Oral Resumo:

No contexto educativo, a comunicação e interação entre alunos e professores tem registro há cerca de 2400 anos, quando Aristóteles ensinava seus alunos. Historicamente a comunicação em sala de aula se dá pela tradição de transmissão oral, na qual conhecimentos, culturas e experiências são passados de uma geração para outra por meio da fala. Esse processo comunicativo não ocorre de forma tão natural quando um dos sujeitos é surdo, pois a dificuldade de comunicação oral é um complicador quando se observa a educação dos surdos. Devido a privação sensorial, os surdos não conseguem ouvir, mas o fato de não ouvirem não é impeditivo para que participem dos processos comunicacionais e interativos nos diversos espaços sociais. Vygostky (1989) afirma que os surdos criaram por meio, do que ele chama de mecanismos de compensação e superação estratégias de comunicação por meio de gestos. De acordo com Quadros (1997), esses gestos evoluíram e originaram as diversas línguas de sinais, que são compostas de estrutura e organização similar a das línguas orais apresentando gramática própria e possibilitando a comunicação de conceitos concretos e abstratos entre os surdos e entre surdos e ouvintes. Ainda de acordo com Vygotsky (1989) a língua de sinais é o meio de comunicação natural dos surdos e, permite, além da comunicação o desenvolvimento das funções psíquicas superiores (pensamento, memoria, abstração, dentre outras). Na perspectiva da educação de surdos considera-se que a comunicação em sala de aula deve privilegiar o uso da língua de sinais para o favorecimento da interação entre surdos e ouvintes. Conforme Pacheco (2007) a comunicação acontece a partir da compreensão da fala do outro, assim, a comunicação e interação entre duas ou mais pessoas, sendo uma delas surda, usuária de Libras, e os demais não, só ocorrerá quando ambos os sujeitos compreenderam a fala do outro. A proposta de educação bilíngue para surdos e os processos comunicacionais e interativos em sala de aula podem trazer benefícios não apenas para o surdo, mas também para os professores, funcionários e alunos ouvintes. Para o aluno surdo os benefícios seriam de reconhecimento, divulgação e valorização de sua língua e o aumento do número de interlocutores em suas relações em sala, na escola e na sociedade em geral. Essa realidade permitiria o acesso à educação de qualidade em sua língua natural e sua real inclusão escolar e social. Além de contribuir para a mudança do cenário de fracasso escolar do surdo, pois o acesso, quanto mais cedo possível, à língua de sinais permite ao surdo o desenvolvimento cognitivo e aprendizagem semelhantes ao de ouvintes na mesma idade. Para os ouvintes a comunicação e interação com o surdo, por meio da língua de sinais, possibilita o conhecimento de outra língua, a troca de experiências entre culturas diferentes e, especificamente, no caso das crianças o uso de movimento e expressões faciais e corporais importantes para conhecimento do próprio corpo e do mundo. Assim, os conceitos da educação inclusiva, educação de surdos e língua de sinais, com base nos referencias teóricos de Quadros (1997), Pacheco (2007), Sklyar (2015), Goldfeld (2002) fundamentaram a proposta de trabalho com oficinas e Libras para surdos e ouvintes em escolas públicas de ensino fundamental e médio da região metropolitana de Belo Horizonte. As oficinas foram propostas com o objetivo de divulgar e estimular o uso de Libras nas escolas inclusivas e valorizar a língua de sinais e a cultura surda. Para isso, fez-se um levantamento de escolas públicas de Ensino Fundamental que tivessem alunos surdos matriculados e após contato e manifestação de interesse pelas instituições foram realizadas oficinas do Librário (jogo de baralho de pareamento de cartas contendo sinais de Libras, palavras em Português e imagens). Cada oficina teve duração de uma hora e meia a duas horas, com no mínimo 15 e máximo 30 alunos, surdos e ouvintes divididos em pequenos grupos. A metodologia utilizada durante as oficinas pretende estimular o contato com o aluno surdo, a repetição de sinais de Libras e interação em pequenos grupos. Para realização das oficinas os alunos são organizados em grupos de 4 a 6 alunos, em volta de uma mesa onde as cartas do baralho são dispostas para execução das dinâmicas dos jogos – jogo da memória, jogo do Saci e jogo da Pescaria. Em ambos os jogos, todos os participantes devem fazer o sinal em Libras toda vez que uma carta for utilizada, garantindo assim a memorização dos sinais do Librário do Geral, que trata de palavras sortidas e do Librário da Arte, com sinais específicos das Artes Visuais. A partir das oficinas pode-se observar que os alunos se tornam capazes de perceber e aceitar o outro e suas diferenças, de serem ativos, confiantes e abertos para as relações com surdos e atividades na perspectiva inclusiva, aprendem a lidar com o poder, o controle, a competição e rivalidade. Além de conhecerem pelo menos 52 sinais de Libras, 26 sinais de Libras do

Librário do Geral e 26 do Librário da Arte. Por fim, conclui-se que, a aprendizagem como processo social tendo a língua de sinais como mediadora na comunicação e interação em sala de aula entre surdos e ouvintes pode ser considerada um progresso significativo para a inclusão e educação de qualidade para todos.